Neste último sábado enquanto um Sócrates operário da construção civil quebrava o piso da minha área a procura de um esgoto ( e quiça o que mais) disparando elucubrações sobre as idéias de um livro que portava orgulhoso chamado " A pirâmide desvelada"( segredos da pirâmide de Gizé), eu me reunia com alguns colegas de trabalho para discutir questões variadas e muito saborosas sobre como estabelecer contato, como atingir a essência focada atualmente pelo MEC no que tange a competência leitora e interativa a ser desenvolvida e ou despertada nos pequenos e grandes, assim como o caminho matemático apontado para a questão, ou seja, problema com suas variáveis e possíveis soluções. Leia-se possíveis soluções de forma aberta, flexível. Ser flexível para o educador hoje é mais importante do que ter mestrado.
O interessante neste fato é que é muito rico em possibilidades e vertentes. O caso do filósofo operário, me fala sobre a competência leitora do autor pedreiro de teses, demonstrando que em qualquer idade e condição social é possível encontrar situações que ilustram este desafio. No caso do pedreiro o despertar pela leitura nasceu de sua paixão por desvendar os mistérios da existência e da necessidade de se exilar das circunstâncias penosas que cercavam sua infância e juventude. Este encontro com a literatura foi fomentado por seu contato com o google, que lhe abriu as portas da informação e das novas tecnologias. Hoje também serve de abrigo contra as adversidades que ainda assombram sua sobrevivência recortada pelo alcolismo , por relações conflitantes com filhos desajustados e pela perda precoce da esposa com câncer. A leitura é sua grande aliada.
Observar estes ingredientes e transformá-los em possibilidades e soluções é um longo trabalho.
Uma das colegas presentes contou que espantou-se ao perceber que a filha de dois anos corria em volta dela enquanto ela lia e tentava entender o que mãe estava fazendo ali parada durante tanto tempo olhando para um objeto com com manchinhas pretas ( um livro). Uma criança de dois anos entende o mundo como pura atividade e isto nos leva de volta ao mundo das descobertas. Como foi seu primeiro contato?
Uma das minhas colegas trouxe a língua, a gramática e a dificuldade de operacionalizar tudo num contexto , ou seja expressar e entender corretamente.
Há tempos atrás eu tive a sorte de ler um texto muito interessante enfocando a arte, que analisava a trajetória de nossa evolução, desde as primeiras formas de expressão oral até o desenvolvimento da língua falada. Articular sílabas e palavras foi um longo processo de descoberta que transformou nossa espécie. Aí está , em minha modesta opinião a chave para toda a questão.
A partir do momento em que compreendi que o desenvolvimento da linguagem oral e posteriormente escrita foi concebido a partir de uma necessidade de sair do isolamento no qual vivíamos passei a entender a expressão e compreensão do outro como um grande desafio.
A linguagem através da qual nos expressamos e buscamos decifrar o outro é uma habilidade que desenvolvemos a fim de nos revelarmos, nos mostrarmos , nos comunicarmos com o mundo. A linguagem veio nos salvar da solidão, nos socializou.
Quando compreendemos este instrumento como uma prerrogativa crucial desenvolvida por nossa espécie podemos assim avaliar a grandiosidade do ato de expressar-se, mostrar-se, contar-se através das letras , palavras e falas. É um grande dom articular-se.
Deste ponto de vista comunicar-se é um desafio, entender a sintaxe acaba sendo uma consequência natural do fato de precisar tornar-se inteligível e ou dizer-se corretamente.
Fazer-se entender não é simples, interpretar o interlocutor muito menos. Estas habilidades quanto mais praticadas mais nítidas.
Neste momento, portanto, quando escrevo este post, tento expor meu pensamento, contar minha vivência e exalar um pouco do que acho que aprendo. Posso estar sendo clara ou confusa, interessante ou desinteressante, bem sucedida ou mal sucedida em minha tentativa de manifestação.
Durante a reunião , que foi patrocinada pela Saraiva, uma colega trouxe a análise sintática que jamais havia aprendido a usar corretamente.Não sei se alguém já aprendeu corretamente,mas entender regras não é o mais importante. As malditas exceções podem parecer absurdas quando diagramadas num compêndio de regras sobre objeto direto, indireto, adjunto adnominal, adverbial e por aí afora, mas se observarmos a sintaxe como a forma de organização da linguagem escrita, como um facilitador de nossa expressão, torna-se outra a relação.
Comunicar-se é desafiador e em última instância é para tanto que vivemos em sociedade. Nosso outro mundo interior precisa que aprimoremos nossa forma de comunicação, precisa nos mostrar com precisão, limpidez e clareza. Eis como vejo.
Existem inúmeras formas para expressar-se, a arte é a mais ampla, afinal foi lá que começamos a nos tornar mágicos. Sejamos metafóricos, metalinguísticos , artísticos , teatrais, visuais, enfim, sejamos geniais. É preciso digerir o mundo.
As palavras são como substâncias digestivas do pensamento, entendê-las é fazer a primeira viagem a Lua, é estabelecer contatos imediatos no enésimo grau. É descobrir a senha para entrar na festa.