sexta-feira, 30 de julho de 2010

Cecília Meireles é tudo.

Noções

Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.

Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge.

Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram.

Virei-me sobre a minha própria experiência, e contemplei-a.
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.

Ó meu Deus, isto é minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inúmera...

Cecília Meireles

Vale reproduzir pelo tanto que diz sem dizer.....

beijo ceciliano
da Linda

Da-me tua mão..

Porque nunca foi dito o que baste.....


Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.

Clarice Lispector

domingo, 25 de julho de 2010

Sempre bons tempos....

*
Sábado,24 de julho de 2010. Chove lá fora e aqui....Reunião de nossa combalida confraria de mulheres falantes de asneiras. Tem coisa mais legal do que jogar a conversa fora, sem compromisso com o politicamente correto? Rir das próprias piadas antes de contá-las e especular o óbvio.
Pois é , eu sou um ser de sorte e ainda por cima uma deslumbrada com as pequenas grandes coisas do trivial humano.
Uma tacinha de vinho, algumas bombinhas de atum e o esticadinho da Pâmela. Celulite cremosa para ser absorvida nas entrelinhas sob o calor da lareira e anatomicamente esquecida sobre o sofá.
Temas picantes segredados em gargalhadas, não há melhor terapia enquanto sustentamos nossas farsas particulares.
Cresce o elenco de pessoas desnecessárias pelas bandas daqui.
Apesar de combalida por sucessivos desencontros nossa confraria se mostrou intacta. As pautas totalmente a salvo de qualquer constrangimento ou clima. Saudades.
Apesar do frio glacial que tem feito neste inverno desolador, os momentos calientes e gastronômicos tem marcado presença.Telefonema inusitado. Visita surpresa de James O'kief. Legal à beça...na segunda edição deste ano.
Os caminhos vão se descruzando e as distâncias vão aumentando.Muito muda , mas o que importa fica...
*
Sexta, 23 de julho de 2010. Frio Polar. Melhores amigas. Encontro etílico gastronômico interestadual.Casacos e mantas.Luz é meia. The Coors na tela. Cardápio Entrecot , Salada Ceasar e Brochete. O Brochete( uma espécie de xixo apenas com filé) é um pouco sugestivo. Acho mesmo, apesar de não ser uma apreciadora da carne vermelha, que pode ser muito saboroso, mas o nome é deprimente, em especial em uma sexta fria. Vinho tinto, uma taça, duas. Coalho.
Linguiçinha cortada a faca. Debate sobre por que a linguicinha cortada a faca chama-se linguicinha cortada a faca. Muitos quilos depois.
Sobremesas no plural, Profiteroles, Brownies, Petit Gateau. Chás digestivos , sono.
Milagre: minha amiga geminiana não discutiu sobre a Carta de Vinhos e comeu sobremesa.
Bochechas vermelhas.Sono.
by lindao'mahley

terça-feira, 29 de junho de 2010

O mundo animal.

A música emprestou um pouco de poesia e a vida , pulsando por todos os lados (quase latejando), deu início a minha cruzada pela vida desta manhã.
Ontem quando acordei e abri a área de ventilação do meu quarto a primeira coisa que vi foi um bicho cabeludo, este mesmo, aquele intocável. Estava lá sozinho andando sobre o concreto morto entre algumas folhas secas caídas de alguma árvore alienígena.
Tenho por princípio jamais matar qualquer bicho, exceto se for eu ou ele. Uma barata, por exemplo, sem chances de negociação!
Muito bem , lá estava nossa jovem criatura e nem tão bela, aliás, sim , muito bela.
Quando ela andava suas cerdas degradé se moviam como uma dança do ventre. Enfim, era linda e pelo tamanho deduzi que a jovem caiu de seu barraco por acidente.
Imaginei que algum bichão pai viesse resgatá-la e portanto deixei pra lá. Bem longe de mim e do Stuart, é verdade, um território restrito, mas todo dela.
Ela ficou lá matutando e andando de um lado para outro, procurando um jeito de voltar para casa e eu fui embora.
Hoje os pássaros lá felizes, o Sol cheio de si e a pobre bichinha continuava andando. Devia estar exausta andando daquele jeito, solitária.
Fiquei imaginando porque a natureza cria animais assim tão exóticos, que não podem ser tocados porque queimam. Tem pessoas que também são um pouco assim.
Resolvi iniciar uma operação de salvamento. Deduzi pelos meus conhecimentos da vida selvagem que , se ela voltasse para o galho de onde se atirou( ou caiu) reencontraria seus pares e seguiria seu destino, deixando minha consciência em paz.
Luvas, escada e uma pá me pareceram ser as ferramentas adequadas para a operação(além de uma certa coragem).
Quando empurrei a bichana felpuda para a pá com uma folha ela automaticamente se enroscou toda. Ficou apavorada e fingiu-se de morta. Pensei que seria melhor para nós duas se ela continuasse imóvel e deduzi que nosso medo era recíproco. Uma questão de respeito mútuo. Mas não me teste.
Subi até o último degrau e estiquei meu braço segurando a pá com a pequena cabeluda imóvel e fiquei esperando até que ela se dignasse a caminhar até o galho.
Meu braço já estava adormecendo(uma eternidade) quando a criatura resolveu se mover e cheguei a ficar emocionada. O encontro de dois mundos. Ela entendeu minhas intenções.
Quase em lágrimas dei adeus ao vespídeo enquanto se deslocava para seu galho e cumpria seu destino.
Mas, a lei de Murphy está aí para ser experimentada e quando pensei que todos seriam felizes para sempre a dita cuja suicida se atirou de volta nos braços da mamãe. Acho que ela se apegou.
Não preciso dizer que dei um salto para trás e nem lembrei que estava no último degrau da escada, não esperei um gesto de agradecimento da pobre.
Sim eu sobrevivi e nem cheguei a me estatelar no chão, mas o problema do resgate da maranduvá continuava insolúvel.
Ela tinha cerdas anti-impacto e nada sofreu com a queda. Ufa!
Decidi usar o planoB. Coloquei a Mendy (como passei a chamá-la dado o clima de quase proximidade) novamente na pá e subi decidida os degraus. Sem olhar para trás lancei a Mendy para o outro lado do muro onde provavelmente há um "jardim" de bichos cabeludos e voltei para minha leitura me sentindo Indiana Jones.
A parte do provavelmente é a minha assinatura do episódio, talvez porque eu nunca olhe atrás do muro para ver o que acontece. Prefiro ficar supondo que "tudo ficará bem". Ou, melhor nem ver..
Hum! Um tanto patológico!
O Stuart não participou da missão porque não se relaciona muito bem com outras ordens e, agindo de forma passional, poderia colocar toda a operação pelo muro abaixo.
Bem, a Mendy se foi para continuar devorando suas plantinhas e queimando outras paradas por aí...
Não, eu não acho que a Mendy seja só uma praga que queima pessoas. Fico aterrorizada quando lembro das experiências que fazíamos com sapos quando eu era criança. Tínhamos uma turma durante o veraneio que contava com a liderança de meu primo sadodestrutivo que operava as maiores atrocidades. Por mais que eu fosse coadjuvante, fui uma cúmplice .
Cruela sim, mas por sorte estes tempos já vão muito longe ....
beijo zoofóbico
O'Mahley

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Pelo que me toca..

Pelo que me toca estou aqui,
entregue a meu sonho
que sem jeito me ponho
tão banal e distraída,

bem dentro me estranho
e de aperto me arranho,
de tão abstraída sufoco e
no cordão das letras
me evoco me discuto
sem métrica, nem rima,
no avesso do verso
que se procura porque
na palavra tem a cura,

tem o texto que é tergiverso
que é puro, uma mistura
e nenhum verbo assegura
pelo que me toca,

pelo que me invade ,
pelo que transbordo ou
pelo que só abandono e
esqueço pelo espaço
sem destino ou inscrição,

porque não me toco
mesmo de tudo isso
e fico por aí entre aspas
a esmo, como citação
isolada, ao acaso mencionada
pelo que me diz respeito,

deixa assim sem forma e sem jeito
porque nem de longe me agrada
entender o meu sujeito vago
irresoluto ou imperfeito.

domingo, 23 de maio de 2010

Eu confesso...

Eu sou daquelas pessoas que morre de vergonha de transparecer que vive dois mundos paralelos: o da realidade fática e prática , aquele que impõe a rotina da racionalidade, da atitude e responsabilidade e o da fabulosa imaginação, aquele cujo botão vermelho desliga todo o mundano e enfadonho episódio corriqueiro e clica na fantasia. Em segundos eu estou lá no pódio recebendo a medalha de ouro. Posso estar também entre os aplausos da platéia por minha representação esplendorosa ou ainda, cantando uma canção( esta é a parte que mais gosto) definitiva e impactando os mortais com meu brilho e talento acima da linha do comum. Enfim, neste mundo a passarela, o pódio ou o patíbulo são meu cenário predileto . Eu sou a razão de todas as coisas e o mundo só existe para justificar minha existência.
Este episódio corresponde aquele em que admito que meu ego é o dono e senhor do mundo e ultimamente, tenho dedicado 81,4 % do meu tempo tentando aniquiliá-lo, mas ele é muito poderoso, precisa de muita comida(como Garfield) e , infelizmente , é alimentado com suplementos potencialmente nutritivos que estão a disposição nos mais distantes rincões da urbanidade. Uau.
Toda esta forma hiperbólica de falar não é um exagero.
Eu confesso!
beijo
O'mahley

domingo, 9 de maio de 2010

Resquícios de um dia qualquer..

Exatamente hoje eu estava assistindo a um desses filmes franceses densos, onde os silêncios revelam muito mais do que as palavras dos personagens. Sempre acreditei nas entrelinhas. Aliás vivo procurando entrelinhas nas sequências . Senti um imensa vontade de passar café e aspirei um cheiro confortável de casa, reduto e aconchego. Como aquele casaco surrado que adoramos vestir ou aquela meia gostosa que não combina com nada. Às vezes eu me sinto assim. São coisas muito simples que se revelam a nós, às vezes. Tudo seria muito fácil se não tivessemos que encontrar nossos pares, ávidos por ouvir nossas histórias e nossas conquistas. Ávidos por saber o quanto somos iguais a todos e o quanto desejamos conquistar as mesmas coisas que todos. Precisamos nos relacionar com o mundo e aí então como é que fica? Temos que falar sobre as coisas interessantes que fizemos e mostrar o quanto somos belos, intensos e sagazes. Às vezes, só às vezes fica parecendo que chegamos ao ponto. O que vai nos fazer estar adequados no dia seguinte. A rima do poema.O silêncio honesto e Clarice Lispector.
Não é incrível que a parte escandalosamente mais interessante de nós não interesse ? Isto é só uma impressão, um resquício de compreensão de um dia qualquer...
Eu tenho um gosto imenso por estar comigo mesma. Gosto de fotos, imagens congeladas. Gosto de pensar que elas estão lá prisioneiras e que posso olhá-las o quanto deseje e sempre que queira fazê-lo e elas não podem fazer nada. Ficam lá estáticas, apenas a me mover por dentro.
Livros também, muitas vezes nos explicam, nos explicitam melhor do que nós mesmos. Alguns deles é como folhear um velho caderno de anotações. São intimamente nossos.
Alguns domingos abrem as comportas e nos fluem. Vertem-nos como um aroma de café fresco. Sem explicação.
Hoje, poderia ser qualquer dia desses com sabor de intimidade comigo. Uma pergunta que não precisa de resposta ou uma atitude que não requer motivo ou sentido.
beijo
da melodramática
Linda melhor parte O'mahley