sábado, 14 de agosto de 2010

Coisas que só conto aqui...

Uma das minhas predileções é reger orquestras imaginárias( nem tanto). Alguns dias inesperados em que escuto um pouco mais, ouço as cordas magníficas que atravessam o tempo e se reproduzem inteiras em meu entorno. Simplesmente me entrego ao deleite de me misturar a elas.
Quando os alegros e adágios se alternam em ritmos alucinantes ressuscitam algo incomensurável. Chego ao frenesi. É a sensação mais quântica e mágica que conheço. Além de ser um ótimo exercício para os braços . Após uma horinha regendo os braços ficam tinindo.
O corpo flutua e as pálpebras se entregam e fecham as comportas para o mundo lá fora. São milhares de sensações e vozes através daquelas notas, cada uma querendo dizer algo. Acredito que não exista quem não ame desesperadamente as estações de Vivaldi. É uma das minhas prediletas e a mais conhecida das obras do italiano. (Em pensar que chegou a ser padre!)
O concerto para violinos nos seus movimentos lentos e rápidos me enleva de tal forma que não consigo traduzir. Fico lá regendo repetidas vezes meus preferidos, os alegros do outono e inverno, apesar de achar tudo maravilhoso. Cada nota é tão repleta que fica impossível ouvir uma só vez. É preciso entregar-se por inteiro e permitir que a alma me conduza por entre as notas sob minha baqueta.
Olhos voltados para dentro e palmas para o italiano de saúde frágil que viaja pelo tempo para me emprestar um momento de mágica felicidade.
Outra paixão que costumo reger é a nona sinfonia de Beethoven e não sei precisar há quanto tempo nos apaixonamos. É simplesmente uma hecatombe. Faz com que todo o resto do mundo perca totalmente a importância. Ficamos apenas nós , as cordas , oboés, flautas , trompetes, trompas, o coral de vozes , o silêncio do mundo e a composição do gênio. Puro êxtase provocado solenemente.Como se fosse a primeira vez, em 7 de maio de 1824. Aplaudido cinco vezes o homem que não podia ouvir sua magnífica obra.
Dá para entender onde o pianista João Carlos Martins encontrou forças para dar a volta por cima e vencer todas as adversidades. A música é terapêutica, didática , preventiva e aconchegante.
Vale também declamar Cecília Meireles em voz projetada para você mesmo.
Simples como sorver o ar para os pulmões e depois exalar. Apenas entregue-se! Exale-se!
Beijo
da Linda

Sobre ser feliz , ir a feira e ter um blog.

Eu adoro ir a feira, um prazer que raramente a preguiça me permite.Os supermercados me arrancaram este hábito tão salutar. Quando venço a inércia é absolutamente delicioso. Gosto de olhar as pessoas com o ar do despertar matutino. Alguns corridos da cama para apanhar o filé mignon das hortaliças, outros de natureza madrugadora (o que não é o meu caso) chegam cheios de disposição e planejamento. Hoje estava uma garoa fina, de frio, céu cinza e um vento gelado, mas ainda assim o efeito da baixa temperatura sobre alguns sabores é inédito. Comi o mamão da década, doce e lindo. Um sabor que vai viver para sempre em minha boca, nas impressões que ficarão registradas na memória.

Sentir o cheiro misturado dos sabores presentes, olhar os diferentes todos iguais. Perceber os que parecem iguais,mas ali estão tão diferentes, em outra frequência. Este sabor só pode ser superado por um mercado público. Adoro os mercados. Caminhar por eles é renovador e muito rico. Acho que é a simplicidade , aquela velha fórmula das pequenas coisas.

As laranjas de umbigo estavam espetaculares, como verdadeiras obras do capricho da laranjeira, tão redondas e cheirosas. Fiquei simplesmente feliz, vendo as pessoas se encontrando e trocando idéias sobre amenidades . Algumas conversas sobre a rotina de quem vive de produzir . Um contraste com minha vidinha urbanóide que acaba sendo limitada a colher pelos dias o que a rotina me impõe.

E o legal é que , tendo um blog, eu posso deixar aqui registrado este episódio tão simples mas de tanto valor.

Falando nesta história de ter um blog, é impressionante o que tenho visto por aí pelos blogs. Toda sorte de objetivos ganha visibilidade. É revolucionário.

Parece que as pessoas, além de terem seus domicílios no mundo material , identidades civis e credenciais sociais, agora também precisam de um portal virtual. Uma identidade digital , bem menos limitada, onde tudo parede ser permitido, todas as combinações se tornam possibilidades.

Outro dia mesmo eu estava lendo uma destas revistas que só vejo quando vou ao cabeleireiro. Um tipo de lixo que eu não compraria para ler, mas em consultório médico, dentário e salão de beleza, qualquer fuga é permitida.No meio do lixo encontrei uma matéria muito legal sobre a atriz Márcia Cabrita, que está enfrentando a quimioterapia e criou um blog para falar, com muito humor claro, sobre as situações hilárias causadas pela tragédia de viver um câncer. Desde dicas de arranjos com lenços até maquiagem, com leveza e humor de quem está aprendendo a lidar com os meandros da vida. Olha que bárbaro. Como as pessoas são interessantes. E a vida ali , me mostrando as sutilezas do aprendizado.

Poder partilhar idéias sem muito compromisso é renovador . Até idéias simplórias sobre a feira de sábado. Uma parte de mim que encontro nos outros e todas as partes dos outros que fazem parte de mim. Tão estranhos, tão íntimos.

Como disse o chapeleiro( em Alice nos país das maravilhas) não posso perder a minha muiteza, sob pena de esquecer as melhores coisas que a vida me guarda. Thanks!!


beijo muito

da linda

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Cecília Meireles é tudo.

Noções

Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.

Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge.

Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram.

Virei-me sobre a minha própria experiência, e contemplei-a.
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.

Ó meu Deus, isto é minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inúmera...

Cecília Meireles

Vale reproduzir pelo tanto que diz sem dizer.....

beijo ceciliano
da Linda

Da-me tua mão..

Porque nunca foi dito o que baste.....


Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.

Clarice Lispector

domingo, 25 de julho de 2010

Sempre bons tempos....

*
Sábado,24 de julho de 2010. Chove lá fora e aqui....Reunião de nossa combalida confraria de mulheres falantes de asneiras. Tem coisa mais legal do que jogar a conversa fora, sem compromisso com o politicamente correto? Rir das próprias piadas antes de contá-las e especular o óbvio.
Pois é , eu sou um ser de sorte e ainda por cima uma deslumbrada com as pequenas grandes coisas do trivial humano.
Uma tacinha de vinho, algumas bombinhas de atum e o esticadinho da Pâmela. Celulite cremosa para ser absorvida nas entrelinhas sob o calor da lareira e anatomicamente esquecida sobre o sofá.
Temas picantes segredados em gargalhadas, não há melhor terapia enquanto sustentamos nossas farsas particulares.
Cresce o elenco de pessoas desnecessárias pelas bandas daqui.
Apesar de combalida por sucessivos desencontros nossa confraria se mostrou intacta. As pautas totalmente a salvo de qualquer constrangimento ou clima. Saudades.
Apesar do frio glacial que tem feito neste inverno desolador, os momentos calientes e gastronômicos tem marcado presença.Telefonema inusitado. Visita surpresa de James O'kief. Legal à beça...na segunda edição deste ano.
Os caminhos vão se descruzando e as distâncias vão aumentando.Muito muda , mas o que importa fica...
*
Sexta, 23 de julho de 2010. Frio Polar. Melhores amigas. Encontro etílico gastronômico interestadual.Casacos e mantas.Luz é meia. The Coors na tela. Cardápio Entrecot , Salada Ceasar e Brochete. O Brochete( uma espécie de xixo apenas com filé) é um pouco sugestivo. Acho mesmo, apesar de não ser uma apreciadora da carne vermelha, que pode ser muito saboroso, mas o nome é deprimente, em especial em uma sexta fria. Vinho tinto, uma taça, duas. Coalho.
Linguiçinha cortada a faca. Debate sobre por que a linguicinha cortada a faca chama-se linguicinha cortada a faca. Muitos quilos depois.
Sobremesas no plural, Profiteroles, Brownies, Petit Gateau. Chás digestivos , sono.
Milagre: minha amiga geminiana não discutiu sobre a Carta de Vinhos e comeu sobremesa.
Bochechas vermelhas.Sono.
by lindao'mahley

terça-feira, 29 de junho de 2010

O mundo animal.

A música emprestou um pouco de poesia e a vida , pulsando por todos os lados (quase latejando), deu início a minha cruzada pela vida desta manhã.
Ontem quando acordei e abri a área de ventilação do meu quarto a primeira coisa que vi foi um bicho cabeludo, este mesmo, aquele intocável. Estava lá sozinho andando sobre o concreto morto entre algumas folhas secas caídas de alguma árvore alienígena.
Tenho por princípio jamais matar qualquer bicho, exceto se for eu ou ele. Uma barata, por exemplo, sem chances de negociação!
Muito bem , lá estava nossa jovem criatura e nem tão bela, aliás, sim , muito bela.
Quando ela andava suas cerdas degradé se moviam como uma dança do ventre. Enfim, era linda e pelo tamanho deduzi que a jovem caiu de seu barraco por acidente.
Imaginei que algum bichão pai viesse resgatá-la e portanto deixei pra lá. Bem longe de mim e do Stuart, é verdade, um território restrito, mas todo dela.
Ela ficou lá matutando e andando de um lado para outro, procurando um jeito de voltar para casa e eu fui embora.
Hoje os pássaros lá felizes, o Sol cheio de si e a pobre bichinha continuava andando. Devia estar exausta andando daquele jeito, solitária.
Fiquei imaginando porque a natureza cria animais assim tão exóticos, que não podem ser tocados porque queimam. Tem pessoas que também são um pouco assim.
Resolvi iniciar uma operação de salvamento. Deduzi pelos meus conhecimentos da vida selvagem que , se ela voltasse para o galho de onde se atirou( ou caiu) reencontraria seus pares e seguiria seu destino, deixando minha consciência em paz.
Luvas, escada e uma pá me pareceram ser as ferramentas adequadas para a operação(além de uma certa coragem).
Quando empurrei a bichana felpuda para a pá com uma folha ela automaticamente se enroscou toda. Ficou apavorada e fingiu-se de morta. Pensei que seria melhor para nós duas se ela continuasse imóvel e deduzi que nosso medo era recíproco. Uma questão de respeito mútuo. Mas não me teste.
Subi até o último degrau e estiquei meu braço segurando a pá com a pequena cabeluda imóvel e fiquei esperando até que ela se dignasse a caminhar até o galho.
Meu braço já estava adormecendo(uma eternidade) quando a criatura resolveu se mover e cheguei a ficar emocionada. O encontro de dois mundos. Ela entendeu minhas intenções.
Quase em lágrimas dei adeus ao vespídeo enquanto se deslocava para seu galho e cumpria seu destino.
Mas, a lei de Murphy está aí para ser experimentada e quando pensei que todos seriam felizes para sempre a dita cuja suicida se atirou de volta nos braços da mamãe. Acho que ela se apegou.
Não preciso dizer que dei um salto para trás e nem lembrei que estava no último degrau da escada, não esperei um gesto de agradecimento da pobre.
Sim eu sobrevivi e nem cheguei a me estatelar no chão, mas o problema do resgate da maranduvá continuava insolúvel.
Ela tinha cerdas anti-impacto e nada sofreu com a queda. Ufa!
Decidi usar o planoB. Coloquei a Mendy (como passei a chamá-la dado o clima de quase proximidade) novamente na pá e subi decidida os degraus. Sem olhar para trás lancei a Mendy para o outro lado do muro onde provavelmente há um "jardim" de bichos cabeludos e voltei para minha leitura me sentindo Indiana Jones.
A parte do provavelmente é a minha assinatura do episódio, talvez porque eu nunca olhe atrás do muro para ver o que acontece. Prefiro ficar supondo que "tudo ficará bem". Ou, melhor nem ver..
Hum! Um tanto patológico!
O Stuart não participou da missão porque não se relaciona muito bem com outras ordens e, agindo de forma passional, poderia colocar toda a operação pelo muro abaixo.
Bem, a Mendy se foi para continuar devorando suas plantinhas e queimando outras paradas por aí...
Não, eu não acho que a Mendy seja só uma praga que queima pessoas. Fico aterrorizada quando lembro das experiências que fazíamos com sapos quando eu era criança. Tínhamos uma turma durante o veraneio que contava com a liderança de meu primo sadodestrutivo que operava as maiores atrocidades. Por mais que eu fosse coadjuvante, fui uma cúmplice .
Cruela sim, mas por sorte estes tempos já vão muito longe ....
beijo zoofóbico
O'Mahley

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Pelo que me toca..

Pelo que me toca estou aqui,
entregue a meu sonho
que sem jeito me ponho
tão banal e distraída,

bem dentro me estranho
e de aperto me arranho,
de tão abstraída sufoco e
no cordão das letras
me evoco me discuto
sem métrica, nem rima,
no avesso do verso
que se procura porque
na palavra tem a cura,

tem o texto que é tergiverso
que é puro, uma mistura
e nenhum verbo assegura
pelo que me toca,

pelo que me invade ,
pelo que transbordo ou
pelo que só abandono e
esqueço pelo espaço
sem destino ou inscrição,

porque não me toco
mesmo de tudo isso
e fico por aí entre aspas
a esmo, como citação
isolada, ao acaso mencionada
pelo que me diz respeito,

deixa assim sem forma e sem jeito
porque nem de longe me agrada
entender o meu sujeito vago
irresoluto ou imperfeito.