quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Minha primeira lição sobre preconceito

Quantas vezes seres estranhos acabam sendo importantes em nossas vidas. Há inúmeras pessoas que eu amei secretamente de alguma forma pelo bem que me fizeram. Hoje quando me dou conta disso percebo a abundância que é existir. Lições  brotam de muitos mestres.
Uma das minhas lembranças mais fortes voltou outro dia quando encontrei em uma loja de departamentos uma colega de escola que não via há pelo menos três décadas.
Quando estava na quarta série tive alguns momentos difíceis desencadeados por uma professora. A Tia Sueli era uma mulher que chamaríamos de meia idade, tinha voz grave e sofria de uma ironia grave. Embora  não tivesse o sorriso terno ou um olhar doce me transmitia confiança e eu gostava quando balançava as pulseiras e exibia o anel de normalista.
Com o tempo mostrou-se amarga e afogada em preconceitos.  O nome do filme é "Tia Sueli versus alguns punhados de crianças e suas singulares histórias". Entre elas estava eu.
Éramos cerca de trinta e poucas crianças distribuidas na sala com base em critérios nada pedagógicos. Na primeira fila os prediletos, aplicados, ou seja, os primeiros da classe. Logo a seguir os medianos, os indiferentes, entre os quais eu me enquadrava. Nem lá e nem cá, bem onde gosto de estar. Mais ao fundo da sala colocavam-se os alunos menos aplicados, repetentes, os mais humildes e ainda uma menina negra, a Claudete, que acabou me salvando daquela que se tornou o Leviatã de saias.
Dentro do simbolismo que habita o imaginário  de uma criança de nove anos significava dizer que o afeto da tia Sueli estava destinado aos primeiros e  para os  últimos seriam as sobras.
Um belo dia de abril tudo  que parecia estar "no lugar"  mudou. Eu faltei a aula porque tive uma crise de bronquite e quando retornei, aquele espectro coberto de pó de arroz com longas garras vermelhas e cheiro de talco olhou para mim como se eu fosse uma intrusa e então percebi que minha classe estava ocupada por um colega novo.
Fiquei parada com minha pasta sem saber o que fazer. O rabo de cavalo me puxava as maças do rosto porque eu começava a contrair num choro. Meu mundo caiu enquanto os meus colegas se agitavam pela sala sem dar conta da minha aflição.
Indiferentes, as bochechas da tia Sueli cheias  de rouge começaram a se agitar flácidas como uma geléia de amoras  enquanto ela sacudia o braço coberto de pulseiras (que indicavam os  anos de casamento) apontando para um lugar lá no fundo ao lado da Claudete.
Na minha pobre interpretação da época eu entendi que não poderia mais participar da festa. Eu não estava mais entre suas preferências, estava sendo rebaixada para outro plano porque perdi minha vaga na primeira classe. Não consegui disfarçar minha injúria e quase às lágrimas protestei!!
O protesto só me valeu um pouco mais da ira da Tia Sueli que mostrou todos os dentes tortos e amarelos de uma só vez e não arredou pé. Naquele momento o chão se abriu.
A partir do dia seguinte iniciaram-se sucessivas crises de mal estar . Eu ficava com taquicardia e boca seca  parada no fundo da aula , dura como um poste, sem me mexer. Fui o castigo da tia Sueli. Se talvez  ela apenas me desprezasse até então, passou a me detestar.
Todos os dias eu chegava na classe e ficava dura chorando e em pânico. Insuportável para qualquer professor, a autocomiseração.  Enfim ela me mandava para o serviço de orientação e eu encontrava a maravilhosa Teodolinda.
Era o céu. A dona Teodolinda era um anjo e ficávamos tomando água com açúcar até cair. Ela me contava coisas e eu ajudava  em seu trabalho. Por vezes ela me convencia a voltar para aula e outras mandava chamar minha mãe para que eu fosse para casa.
Meus retornos para aula acabaram fazendo com que a Claudete se tornasse uma próxima amiga. Ela tinha um sorriso branco de ofuscar, vivia sorrindo e era cheia de atitude. Ela re-significou a tia Sueli.
A minha nova amiga me apresentou uma nova perspectiva que era estar do outro lado da linha e não era ruim. A Claudete me ensinou sobre coragem.
O tempo passou e eu desenvolvi uma sueliofobia.  Dona Teodolinda e a pequena Claudete foram duas pessoas muito importantes em minha vida, embora eu tenha acabado mudando de classe porque minha mãe acabou reconhecendo que a professora era um tanto sádica. Houveram muitas visitas ao serviço de orientação, mas nada me faz  mais feliz do que pensar a sorte que tive.
Então esta semana encontrei a Claudete e senti uma estranha alegria. Trocamos algumas palavras, mas eu senti um aconchego dentro do meu peito. Eu a vi com a camisa branca do uniforme e o casaco vermelho escuro  com botões dourados carregando uma flâmula e aquele sorriso abundante. Coisa de mestra.
beijo feliz
e lindo

Um comentário:

Mai disse...

Linda, com o resgate dessa tua memória mergulhei em meu próprio filme. Talvez existam muitas suelis, Teodolindas e claudetes e outras tantas com variados nomes na memória de cada criança...

É tão bom poder expurgar isto, não é?

abraços e um bom natal