domingo, 2 de janeiro de 2011

Dois caminhos-um desencontro

No telão rola um dvd ao vivo do' The Cors' e o burburinho das conversas fica abafado pela música. A porta abre e fecha com imprecisão enquanto as mais variadas espécies de buscadores a atravessam como um portal. A partir daquela linha todos se sentem autorizados a penetrar no ameaçador espaço público. Todos de alguma forma vem em busca de perigo, quem sabe tentando acordar o leão adormecido. Alguns esperam uma conversa leve e descontraída , outros filosofia de bar.As mesas dos bares são próprias para sair do trilho dos diálogos mal passados  e penetrar no recipiente sem sentido dos delírios elucidantes. Há ainda os que acreditam que pode passar a carrocinha da cinderela e claro, os que vem em busca de mais uma dose. É claro que eu estou a fim.
No balcão ela gira as  pedras mergulhadas no whisky misturado com água tentando achar onde colocar os braços e o que fazer com as mãos. Desde que abandonou os cigarros não conseguiu mais descobrir onde colocar as mãos, os copos olham para ela e viram em cima de alguém ou quebram, ou voam. A amiga , como sempre atrasada avisa que vai estar mais atrasada. Ninguém conhecido na selva!
No canto à esquerda ele, frente a uma taça de vinho tinto olhando distraidamente  a marca irlandesa da música que se agita. O pé discretamente marca o ritmo. Vira-se e olha ao redor. Ninguém conhecido na selva. Desde que abandonou os cigarros perdeu o jeito para estas azarações. Tentava reconhecer uma balada após vinte anos de um bom casamento que se transmutou em mera sociedade. Faliu. Era um peixe fora d'água, um estranho no ninho, melhor voltar para os livros e os dvds. Levantou-se num ímpeto e dirigiu-se ao balcão onde vira  bancos vazios ao lado de uma mulher aparentemente sozinha. Ela parecia um pouco tensa. Será que esperava alguém?
Sentou-se e arriscou.
Ele- Deveríamos trocar!
Ela- O quê?
Ele-O seu whisky pela minha taça de vinho.
Ela- É! Parece que a minha postura é mais agressiva..
Ele- Garçom, me traz o mesmo!
Ela-Pronto!
Ele-Então?! Algum problema eu sentar aqui?
Ela- Depende!
Ele-?
Ela- Do que vai acontecer nos próximos dez minutos.
Ele- Estou um pouco fora de forma neste jogo.
Ela- Terá que ser o personagem da minha história.
Ele- E como ele é?
Ela- Ainda não o conheço.
Ele- Hum!
Ela- Então  vamos jogar.
Ele-O que faz?
Ela - Dois caminhos para esta pergunta.
Ele-Curioso...Quais?
Ela-Um filosófico e outro prático.
 Ele- Como é o filosófico?
Ela- Chato. Ia demorar muito mais  que dez minutos.
Ele- E e  o prático ?
Ela- Dirige essa conversa para dentro do bonde da ficção de onde quero saltar.
Ele- Então?
Ela- Digamos que eu procuro Wally!
Ele- E quem é esse ?
Ela- Eu não acredito que não conheça Wally! Em que planeta vive?
Ele- Nunca ouvi falar, é algum guru da atualidade?
Ela- Não ele já passou muito da moda. É apenas uma forma de teimosia.
Ele-Saiu de algum manicômio?
Ela-Não, de um casamento!
Ele- Então somos dois.
Ela- E o que está procurando?
Ele- Não sei?!
Ela- Então acaba de conhecer Wally!
Ele está em algum lugar e você sabe que ele está lá, mas ele nunca se parece com o  que você procura.
A porta abriu-se e a amiga atrasada adentrou pela fumaça.
Ele- Risos
Ela- Escoaram nossos dez minutos. Saiu-se bem! À próxima !
Ele- Vem sempre aqui?
Ela- Talvez!
Tocou de leve o ombro do estranho e dirigiu-se a uma mesa .
Ele ficou com aquela sensação de ter pisado na bola e sentiu-se um pouco  estúpido.Olhou a mulher saindo, pagou e partiu.
Ela resistiu ao máximo um olhar para trás, mas procurou sentar-se virada para o balcão. Assistiu enquanto ele partia fingindo indiferença.
Amiga- Quem era?
Ela- Ninguém ....

Um comentário:

~*Rebeca e Jota Cê*~ disse...

O desconhecido sempre atrai os estranhos, onde a vontade de seguir no inusitado sempre permanece.

Beijo imenso, Me-----linda!.

Rebeca

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